10 fevereiro 2011

Muita teoria e pouca prática.

Caríssimos,

"Quem gosta de arte é banqueiro , artista gosta é de dinheiro" .

A frase ,cujo autor  desconheço , é obviamente um absurdo , já que para fazer arte é antes preciso apreciá-la.
Mas ela chama atenção para uma verdade fundamental sobre a atividade artística. Fazer dinheiro com a sua obra é um problema permanente do artista.

Parece ter se perdido de vista, nessa discussão recente sobre o direito autoral, a razão essencial da existência dessa precária construção jurídica : Garantir o equilíbrio nos negócios entre criadores e os consumidores da sua criação .

É importante  lembrar que não foram os direitos autorais que "inventaram" o comércio da criação artística. Negócios entre criadores e consumidores  acontecem desde muito antes de existirem leis sobre isso. Os direitos autorais são apenas a garantia que o  Estado oferece para os negócios privados de comércio da criação. Só isso.

Quando compramos um cacho de banana na feira não pensamos sobre as implicações legais desse gesto, porque nesse  ato comercial simples as partes normalmente ficam relativamente satisfeitas com o negócio. Com ênfase no "relativamente" , já que em negócios não há nunca satisfação total possível. 

Mas se as bananas estiverem estragadas, ou se a virmos um cacho semelhante por metade do preço em outra banca da feira , subitamente nos recordaremos dos direitos dos consumidores e de outras garantias legais.

Quando um negócio entre particulares dá certo , quando as partes saem da negociação com a sensação de que fizeram o melhor negócio possível, ninguém se lembra de recorrer à Justiça.

A lei e a Justiça só aparecem, quando o negócio deu errado, quando alguém se sente injustiçado.

Lembro de outra frase, essa do governante reformista chinês Deng-Xiao-Ping - "Não importa a cor do gato, o que importa é que ele pegue o rato". O que importa na prática para o artista não é o direito que ele tem sobre a sua obra , o que importa finalmente é o "din-din" que vai bater na sua conta. 

Muitos atores nessa pantomima querem vesti-la como uma questão de princípios. Como se houvesse alguma divergência fundamental em relação ao poder do artista sobre a sua obra entre o campo dos "modernautas" do Creative Commons e os "reacionários" do velho direito do autor.

Papo furado. A questão central de toda essa discussão é mesmo o velho e bom vil metal.

Observo que enquanto a classe musical está em pé-de-guerra sobre uma reforma dos direitos autorais , criadores de outras formas de arte raramente se manifestam sobre o tema.   

Ocorre que nós músicos e compositores, estávamos  descansando na praia , justamente na hora em que o tsunami digital chegou arrastando tudo. Então é natural que sentindo nos nossos bolsos os seus efeitos devastadores, sejamos os primeiros a chiar. Mas em breve, escritores e cineastas juntarão suas vozes a essa gritaria.

Mas todo esse barulho serve para muito pouco , enquanto ninguém souber qual é o negócio possível entre os criadores e os consumidores de obras reproduzíveis.

O problema é que o negócio de vender a arte que pode ser reproduzida está em fluxo , vivendo uma transformação acelerada que vai nos levar a algum lugar ainda desconhecido.

Esse é o "X"  da questão. Porque as leis são criadas para estabelecer a equidade entre as partes  em modalidades de negócio que já existem na realidade do mundo.

Voltando à feira. A lei obriga o feirante a aferir sua balança porque  se vendem coisas a peso nas feiras. O "dever ser" da lei só existe porque a prática do mercado já definiu seus parâmetros.

E no momento não há parâmetros no mundo digital, porque o negócio que existia está sendo desmontado , e o novo negócio ainda não apareceu. Portanto discutir novas leis nesse momento é antes de tudo intempestivo.

Por outro lado, temos que convir que não será tentando manter a qualquer custo um modelo de negócio que faz água por todos os lados , que vamos conseguir melhorar o saldo bancário dos criadores.

Um pouco mais de pragmatismo comercial e um pouco menos de idealismo jurídico, fariam muito bem a essa discussão.

Se os detentores de direitos autorais  forem mais receptivos a idéias novas sobre como fazer dinheiro com as suas obras, e os "geeks" forem mais receptivos a idéia de que criadores têm contas para pagar como todo mundo, podemos acelerar muito o inevitável processo de tentativa e erro que levará ao aparecimento de um novo modelo de negócios para a criação artística.    
     
Resumindo : Tem muito direito e pouco negócio nessa discussão.  Quem gera dinheiro , que é o que anda faltando no  bolso dos criadores, são os  negócios, não os direitos.   

Saudações Musicais,

Beni

12 fevereiro 2010

Arte e tecnologia?


Em junho próximo acontecerá em Nova Iorque o leilão do acervo de  obras de arte da Polaroid.

O acervo conta com obras de  alguns dos mais renomados artistas plásticos americanos do século XX , como os fotógrafos Ansel Adams e Robert Mapplethorpe e pintores como Robert Rauschenberg  e Andy Warhol , esse um viciado declarado em polaróides.

Como é que essas obras foram se constituir numa das propriedades mais valiosas da massa falida da Polaroid?

É uma história simples e que revela como arte e tecnologia se beneficiam mutuamente pela convivência próxima.

Edwin H. Land , o inventor do filme de revelação instantânea e fundador da Polaroid, além de ser um químico genial era um sujeito que pensava com a própria cabeça. Ele percebeu que o desenvolvimento da tecnologia da fotografia instantânea necessitava da colaboração de quem a usasse de forma criativa. Por isso deu de presente ao fotógrafo Ansel Adams um dos protótipos de sua primeira câmera de fotografia instantânea.  

Os comentários de Adams sobre a máquina foram tão úteis, que Land o contratou como consultor . Instado por ele a  Polaroid iniciou uma política de dar câmera e filmes para os artistas em troca de algumas fotos,  que colecionadas ao longo dos anos , resultam no acervo que agora vai ser leiloado .

Meu filho Francisco de 8 anos descobriu os Beatles. Por conta disso, tenho sido forçado a ouvir compulsivamente a obra completa  remasterizada lançada no ano passado.  

Os Beatles continuam impressionando os ouvidos de hoje, não apenas pela genialidade musical , mas também porque suas gravações são um modelo de integração entre arte e tecnologia.

Nos  estúdios de Abbey Road , onde os Beatles registraram a maior parte da sua obra , o grupo não encontrou apenas um local adequado para registros sonoros, mas uma cultura de inovação e criatividade em tecnologia.

Se os quatros cavalheiros de Liverpool criaram canções que desafiam o tempo, ouvindo outros discos  gravados na mesma época em Abbey Road como ¨Piper at the Gates of Dawn¨ do Pink Floyd ou  ¨Begin Here¨ do The  Zombies , se verifica que a inovação sonora dos Beatles não foi exceção , mas era a regra nos estúdios da EMI.

Os plug-ins  do meu Pro-Tools , cheios de imitações de efeitos criados na época ,atestam o poder da interação entre artistas criativos e engenheiros curiosos.    

Hoje , zonzo diante de  tantas inovações tecnológicas,  me pergunto:

Onde e quando será agora esse encontro entre arte e tecnologia?  

10 novembro 2009

Em outros tempos, quando eu raramente usava dinheiro de plástico, meus recibos de compras em cartão de crédito saiam da minha carteira para serem arquivados. Em algum momento os papeizinhos seriam analisados, e serviriam para controlar meus gastos e conferir a cobrança das despesas no cartão. 

Hoje até camelô aceita cartão. E os recibos se avolumam de tal forma na minha carteira , que regularmente sou obrigado a dar a eles um destino. Então depois de alguns instantes de culpa, as dezenas de recibos que juntei são inapelavelmente remetidos para a lata de lixo. 

A culpa pela eliminação das provas do meu descontrole financeiro, é sempre ultrapassada pelo simples reconhecimento que jamais terei tempo de arquivar e conferir todos aqueles recibos. 

Qualquer informação é inútil se não for arquivada e processada. 
Manter arquivos é uma coisa que dá um trabalho medonho , processar as informações contidas neles, o grande sorvedouro de tempo que esgota as nossas vidas.

O desenvolvimento dos métodos de classificação é a grande invenção ignorada da humanidade. Foi a capacidade de organizar o conhecimento em categorias e índices, que possibilitou a humanidade acumular informações muito além da memória individual de qualquer um. 
 

Por isso, compreendo perfeitamente essa psicose por listas que nos aflige nos últimos tempos. Fazer uma lista é o primeiro passo de qualquer processo de classificação. 

Ter toda a música gravada do mundo disponível para consumo imediato a qualquer instante , exige de nós, amantes da música, uma completa reorganização de nossos sistemas de classificação , uma tarefa hercúlea, para a qual a mídia pretende colaborar elaborando toda espécie de lista. 

Os mil discos que você precisa ouvir antes de morrer, as cem melhores músicas de todos os tempos, os dez lançamentos obrigatórios do ano , essas e uma infinidade de outras ,são tentativas de nos ajudar a navegar o mar de música que subitamente entrou nas nossas possibilidades de audição.

O problema é que esse bem intencionado esforço classificatório esbarra na natureza da obra de arte. 

Podemos afirmar que o Usain Bolt é o melhor corredor de cem metros do mundo , porque ele correu mais rápido que os melhores do mundo nessa modalidade. O critério de comparação é simples e objetivo, quem faz o percurso no menor tempo é o melhor.

Arte não é esporte. Não existe o melhor guitarrista, o pior disco, o melhor show ou o pior cantor. Não há melhor ou o pior ,simplesmente porque não há como comparar. 

A única maneira de comparar coisas diferentes é pela função. Podemos fazer uma lista das melhores pastas de dente porque ,embora sejam diferentes entre si , elas servem ao mesmo propósito: limpar os dentes. Então, as que limparem mais os dentes serão as melhores. 

Criações artísticas não vêm com instruções de uso como pastas de dente, porque elas servem funções diferentes, para diferentes consumidores. Essa é a natureza da brincadeira. É o que faz produzir qualquer forma de arte uma aventura no desconhecido. 

Se algum produto cultural ,por mais tosco que seja, encontra um público , é porque algum valor o consumidor viu nele. Um valor que muitas vezes o próprio criador desconhecia. Música serve para muitas coisas para pessoas diferentes. 

Há muita música feita para finalidades específicas : música para dançar,para louvar a Deus, para andar atrás de trio elétrico , para relaxar, etc e tal. Mas nada impede o ouvinte de ouvir com satisfação uma música feita para uma situação, em outra, completamente diferente daquela para qual foi originalmente criada. 

Conta a lenda que as variações Goldberg foram compostas por Bach para fazer dormir um conde que sofria de uma insônia terrível. Isso não impediu o pianista Glen Gould de transformar as variações, uma obra esquecida de Bach, num dos grandes sucessos da história da música de concerto. 

Por mais que irrite os criadores (e como irrita!), é a crítica que tem o papel de classificar música. Essa classificação não é um processo instantâneo e definitivo, como as listas querem fazer acreditar.

Pelo contrário, é lento e tortuoso o caminho que leva qualquer música a se tornar um clássico. 

Só o tempo ,muito tempo, determina o que fica e o que vai ser esquecido. Querer adiantar a história e inventar o clássico, antes que o tempo faça o seu trabalho de depuração, é uma bruta perda de tempo.

26 setembro 2009

Rock X Rock = 0

Roqueiro é a tua mãe! 

Essa resposta esteve na ponta da minha língua  sempre que me chamaram por esse adjetivo infeliz. Nada mais justo. Afinal,  foi depois de ver o Art Blakey  & The Jazz Messengers na Sala Cecília Meireles que eu resolvi virar baterista. Mas ,como eu de fato tocava numa banda de rock,  minha indignação ficava  absurda diante da realidade.


Como qualquer adolescente dos anos 70 doido por música , eu ouvi muito rock. Furei vinis de Beatles, Cream ,Hendrix, Who, Zappa e Led Zeppelin ,era doido por Dylan,The Band e Neil Young ,amava Pink Floyd , Genesis e Jethro Tull.
Mas essas doses maçiças de rock se equilibravam na minha dieta musical com  porções generosas de Mingus, Wonder , Monk, Gaye, Miles e Weather Report. 
Claro que isso tudo além da onipresente música brasileira , Gil, Milton, Benjor, Caetano, Maia, Jobim, Da Vila e Da Viola e mais milhares de outros que fizeram a trilha sonora dos meus primeiros vinte anos.  Meu interesse por música me conduziu a apreciar os  mais disparatados gêneros musicais, da experimentação eletrônia  ao samba de raiz, do blues à musica sinfônica , qualquer barulho organizado sempre  me interessou.   


Descobri com alegria nos primeiros anos de atividade profissional, que isso não acontecia só comigo.
Muitos dos meus colegas ¨roqueiros¨ tinham interesses semelhantes e mais surpreendentemente alguns ¨sambistas¨ eram profundos conhecedores de heavy metal. Claro que havia os puristas , os que achavam que tudo que não fosse o gênero que eles faziam era uma porcaria, mas muito frequentemente eles não iam muito longe. Entre músicos o interesse por todas as formas de música é a regra, o purismo a exceção.  


Apesar de me emputecer quando queriam me restringir ao gênero, não posso negar que a minha atitude em relação a música foi determinantemente moldada pelo rock.



Rock é  música bastarda por definição. Apropriação indébita é a única regra estável desse gênero-polvo que abraça com seus tentáculos de Renato e seus Blue Caps ao Sepultura. Foi essa disposição para  a permanente eletrificação e esculhambação das mais diversas tradições musicais que me interessou, e foi ela que fez com que durante 50 anos a marca ¨rock¨ se mantivesse como a principal fonte de inovação da música popular. 

Mas parece que isso é definitivamente passado. 
Claro que existem hoje atuantes dezenas de bandas de rock tão boas quanto as dos anos 70. Mas os Radioheads e Wilcos da vida,  artistas que continuam empenhados na incorporação de novas formas ao formato guitarras/teclados /baixo/bateria , não definem mais o gênero.


¨Rock¨ para um adolescente brasileiro de hoje interessado por música é uma fórmula , um gênero que tem tanta vitalidade criativa quanto o bolero, a rumba ,ou qualquer daqueles outros nomes que aparecem nos ritmos pré-programados dos teclados baratos. 
Por isso as novidades interessantes da música brasileira recente se classificam como qualquer coisa menos rock. 

Não há razão para choro nem vela ,  na medida em que a antropofagia de estilos, a liberdade de usar qualquer tradição musical que lhe venha aos dedos permeia a  produção desses novos artistas. Ou seja a tal ¨atitude¨ rock  permanece , ainda que sob muitos outros nomes. 

Para artistas da minha geração,  do tal ¨BRock¨( como o Dapieve definiu) , isso pode parecer um sinal de irrelevância.  Mas na verdade eles já não precisam mais se filiar a nenhum gênero, sua história já é suficiente para defini-los. Um jovem que ouve hoje ¨Inútil¨ do Ultraje à Rigor pela primeira vez,  não pensa que está ouvindo um rock, para ele é apenas um clássico essencial da canção brasileira.  

 Em vista disso , se alguém me chamar de roqueiro hoje , eu inváriavelmente responderei : roqueiro é a  PQP.
  

     

18 setembro 2009

Criadores de Mundos

Alguém duvida que Maria Bethânia seja uma grande artista brasileira? 

A pergunta não se refere ao meu ,ou ao seu, gosto pessoal, isso é outra questão (grandes artistas necessariamente não agradam a todos), mas ao simples reconhecimento factual do papel de Bethânia na formação do nosso inconsciente coletivo nacional.  

Então ,não há duvida. Independentemente da nossa apreciação pessoal pelo trabalho dela, Maria Bethânia está inscrita na lista daqueles artistas que fazem a cabeça do Brasil. 

Bethânia chegou a essa condição de inquestionável relevância,sem compor uma única canção, sem, além do seu canto,nenhuma contribuição musical aparente ao seu trabalho. Como pode? 

Normalmente, nós associamos autoria à idéia de composição.
O compositor é o autor , o intérprete o veículo. Mas nessa altura do campeonato, passados mais de quarenta anos do aparecimento de Bethânia como intérprete, não dá pra questionar a autoridade dela sobre o próprio trabalho.Autoridade que vem da autoria. 
Mas se ela não compõe as canções , se ela não faz os arranjos, onde está a criação original de Maria Bethânia? 

Artista é alguém que inventa um pequeno mundo. Bethânia, na seleção das músicas que grava, na escolha dos músicos que trabalham com ela, nos textos que declama nos seus shows, revela ao público muito claramente uma visão do mundo altamente original e pessoal . Como Sinatra ou Piaf, ela criou seu planeta particular com música e palavras de outros. 

Hoje, muitos intérpretes acham que compor o seu próprio repertório é o único meio de ser reconhecido como um artista importante, merecedor da atenção e do dinheiro do público. 

Isso é um baita de um equívoco. 

Tem muita gente cantando por aí que seria um artista muito melhor ,se ao invés de compor, tentasse desenvolver um universo estético próprio com as composições de outros.

14 setembro 2009

Encontros humanos extraordinários

Ter encontros humanos extraordinários é uma das melhores coisas que a música proporciona.


Por conta da paixão dividida pela música , pude(posso)  me tornar amigo instantaneamente de pessoas das mais variadas histórias, etnias , línguas e aparências. Poucas coisas na vida me fazem mais feliz do que encontrar gente apaixonada por música.


Semana passada perdi um desses amigos. Conheci Ramiro Mussoto , nos corredores dos estúdios da vida. Estava produzindo um disco e precisava de um pandeiro. O engenheiro de som me sugeriu que pedisse ao percussionista que gravava no estúdio do lado , um cara alto e simpático com sotaque hispânico, com quem já tinha trocado algumas palavras.  Pedir um instrumento por empréstimo para um músico é na melhor das hipóteses como pedir uma escova de dente emprestada, na pior, como sugerir que o sujeito empreste a mulher.


A gravação não andava , o relógio corria  então ,totalmente constrangido, fui ao estúdio do lado como se fosse para o cadafalso, me sujeitar ao não inevitável.


Ramiro, não apenas me ofereceu uma variedade de pandeiros para escolher , mas me apresentou uma pequena sala que, entre mil instrumentos, continha a maior coleção de berimbaus do planeta.


Com esse gesto de excepcional generosidade, Ramiro ganhou a minha gratidão eterna e eu ganhei um interlocutor inteligente e articulado para falar do assunto que eu mais gosto. Seguiram-se dezenas de encontros em estúdios e camarins, uma eventual correspondência por email  e mais do que tudo uma indefinível comunhão espiritual, que faz com que pessoas que pouco se conhecem se tornem torcedores pelo sucesso do outro.


A música brasileira ficou mais pobre, sem o Ramiro aqui para apontar novas direções. Ele partiu , mas a música, sua  paixão, está aí para sempre.  


 


 
 

09 setembro 2009

Curumim, o cachorro e seu rabo.

Desde que os sequenciadores e samplers  entraram no arsenal sonoro da música popular , a coisa mais frequente do mundo é ir a um show para assistir o cachorro correndo atrás do rabo.


O cachorro no caso é o show , o rabo o disco. Cansei de ver músicos de todas as procedências e orçamentos , se dedicarem a inglória tarefa de tentar reproduzir no palco o som do seu disco.

A utilização de elementos  musicais pré-programados é muitas vezes o único recurso disponível para se tentar que o show pareça com o disco. Mas a incorporação desses elementos externos quase sempre leva  a transformação da performance musical num playback de luxo. Toda possibilidade de espontaneidade, de improvisação, de interação da música com o clima da platéia , tudo o que devia fazer de cada show uma experiêcia única vai pro ralo.


Sem performance musical que interaja com o público , o que devia ser um concerto, vira uma sessão de culto a personalidade. Ninguém vai ao show do Black Eye Peas  por causa da performance musical deles , o povo vai ver eles , exatamente como o povo que frequentava os playbacks no Vasquinho de Morro Agudo ia ver os artistas que se apresentavam no programa do Chacrinha.


Semana passada fui ver o Curumim  e o Guizado no Circo Voador. Conheci os discos de ambos ,  cheios de eletrônica na Internet, e os achei promissores. Mas me preparei espiritualmente para mais uma sessão de insanidade canina.

 O trumpetista Guizado abriu  e fez um set basicamente instrumental. Ele tem uma abordagem musical bem original , com composições bem estruturadas ,ao invés da habitual jogação de nota fora que geralmente acompanha o rótulo instrumental. O show foi prejudicado por uma mixagem desastrada e pela amarração da ótima banda ( Lúcio da Nação Zumbi e  Régis do Cidadão Instigado nas guitarras,Marcelo Cabral no baixo e o próprio Curumim na bateria )  em bases rítimicas pré-programadas, que o Guizado disparava de um laptop. Gostei de conhecer mais o trabalho do Guizado, irei continuar acompanhando sua trajetória, mas no fim me deu uma sensação danada de uma oportunidade perdida. 


Quando Curumim começou seu show na bateria , com apenas um baixista e um percussionista , eu me preparei para o pior. Não havia como reproduzir as canções do disco só com aqueles três, sem se socorrer de uma pancada de samplers e sequencers. 

Cai do cavalo. O show é melhor que o disco. Porque ele abre espaço para improvisações e interação com a platéia, porque embora ele use programações à vontade , elas funcionavam de forma orgânica. 
 Sem a eletrônica emperrando,  pude apreciar o quanto a banda é boa, o quanto eles tocam bem, sem virtuosismos gratuitos. Pude apreciar o prazer deles de fazerem música juntos , coisa que gravação nenhuma jamais vai registrar


Isso tudo porque Curumim pensou num espetáculo de música, não na reprodução das canções do disco.   


Mais gente devia pensar assim. 




     

03 setembro 2009

Luis Caldas é doido.


Claro que você lembra dele. Era ele que cantava o ¨Fricote¨. Aquela música ,aparentemente vinda do nada , que num só golpe estabeleceu a base do que viria a ser a axé-music.
Eu tive a oportunidade de passar uma hora vendo Luis Caldas trabalhar no estúdio e posso atestar : O cara é uma força da natureza.
Ele é fluente em diversos instrumentos e gêneros ,tem uma inteligência musical privilegiada, é brilhante e articulado.
Talvez por ser tudo isso ao mesmo tempo, ele também é um pouco doido.
Agora o genial Luis Caldas está lançando dez discos de uma vez. Discos dos mais diversos gêneros. Um de heavy metal , outro de hard rock , um de mpb, dois instrumentais e um todo cantado em tupi-guarani, entre outros.
O amigo que mandou a notícia desse giga-lançamento ensadecido, fez o favor de incluir o link para o myspace , lá pude ouvir que a minha impressão sobre o Luis Caldas não foi equivocada. Ele é doido , só um cara meio fora do normal poderia produzir dez discos de uma vez, mas é gênio.
E diante dessa genialidade enlouquecida eu fiquei pensando: É numa hora dessas que uma gravadora inteligente faz falta.
Porque se o Luiz Caldas parece um gênio perdido, chutando prá todo lado , a culpa é em grande parte de um negócio da música que não sabe lidar com talentos como ele.
Digo isso porque alguns anos antes de presenciar Luis Caldas em sua fúria criativa , pude testemunhar um outro personagem chamado Sebastião Rodrigues Maia gravando no estúdio. E me parece que se Tim tivesse aparecido na cena musical em meados dos anos 80 ,como Luis apareceu , sua carreira teria trajetória semelhante a do sumido Luis Caldas.
Trabalhar com gênios fora de controle como os Luis Caldas e Tim Maias da vida , já fez parte do dia-a-dia de produtores,empresários e executivos da música. Hoje , infelizmente , eles não tem quem os ajude a transformar a sua criatividade caudalosa em produtos consequentes.
Hoje prefere-se a mediocridade bem comportada. O artista que possui uma criatividade desenfrada é visto como um abacaxi , não como uma oportunidade.

22 setembro 2008

Como jogar dinheiro fora alegremente

Apesar de muita gente só enxergar "produto" , música é arte.

É isso mesmo - não se espante - música é arte, como literatura, artes plásticas, teatro e dança.

Antes de existirem discos, o negócio de vender música era muito parecido com o negócio de vender quadros,esculturas, livros e ingressos para espetáculos.

O aparecimento da indústria fonográfica mudou, ao longo do finado Século XX, a maneira como se fazia dinheiro com música , a maneira como o público se relacionava com música , mas não mudou a realidade essencial de que música é arte.

Hoje, quando o negócio de vender música gravada vai numa ladeira abaixo inevitável, nós "gente da musica" voltamos a ser apenas o que sempre fomos, produtores e vendedores de arte.
Durante os cinquenta anos onde objetos circulares de shellac, vinil ou plástico passaram a conduzir o processo de vender música , aconteceu uma inversão de valores no negócio da música que hoje vem cobrar seu preço.

Assisti durante a minha vida profissional , uma crescente invasão do negócio da música por profissionais com formação e mentalidade ligada a comercialização de produtos de consumo.

Marqueteiros,agentes, comerciantes e executivos de companhias de discos passaram a acreditar que vendiam um produto industrial de consumo, e que portanto deviam aplicar a venda de música a mesma lógica que se aplica a comercialização de pasta de dentes, salsichas ou papel higiênico.

Construiu-se a partir dessa premissa falsa um modelo de negócio doido, que ignora verdades básicas sobre a relação do consumidor com obras de arte. Hoje esse modelo dá claras demonstrações de incompetência no que deveria ser sua primeira obrigação - transformar arte em dinheiro.

Um exemplo prático da inépcia do atual modelo do negócio da música:

Essa semana o artista plástico inglês Damien Hirst vendeu num leilão na Sotheby´s a sua produção dos últimos três anos, faturou 127 milhões de dólares.

A Madonna fechou esse ano ,com grande alarde, um contrato de venda da sua produção (discos e espetáculos) com a Live Nation - 100 milhões de dólares por 10 anos de trabalho.

Ou seja, a Madonna vai precisar trabalhar dez anos para ganhar menos do que o Damien Hirst faturou em três.

Então todos os milhões que a Warner gastou ao longo de vinte anos para fazer a Madonna ser um nome reconhecido no planeta foram simplesmente dinheiro jogado fora? Afinal, quem conhece esse tal de Damien Hirst???

Só conhece Damien Hirst quem precisa conhecer. Quem gosta de arte contemporânea, quem tem interesse pelo seu trabalho.

Ahn? então? Marketing não interessa???

Claro que interessa. Marketing é fundamental. Mas marketing errado é a maneira mais eficiente de jogar dinheiro fora que existe.

Quando se aplica ao mercado das artes a lógica do marketing de produtos de consumo industrializados, joga-se dinheiro fora alegremente.

Produtos de consumo são coisas que voce PRECISA comprar. Arte é uma coisa que você compra porque DESEJA.

Todo mundo precisa comprar pasta de dente. Por isso faz sentido usar veículos de massa para alcançar o maior número de consumidores possível. Porque como sabemos, na hora de escolher a pasta de dente no supermercado , muito provávelmente voce vai escolher a que voce viu anunciada.

Com arte não é assim. Ninguém precisa comprar uma obra do Damien Hirst , acho até que a maioria das pessoas iria achar uma vaca partida ao meio de extremo mau-gosto, assim como eu não iria ao show da Madonna, nem se me buscassem em casa.

Ou seja , bombardear de anuncios quem não se interessa por uma determinada obra de arte, não resulta em nenhum centavo de faturamento.

Assim como há colecionadores que pagam milhões de dólares por vacas esquartejadas , há quem deixe de comer uma semana para ir ao show da Madonna. Encontrar essas pessoas é a missão do marketing de arte.

Cá estamos no fim da primeira década do século XXI, com milhares de canais de interação com o público, em plena era do "permission marketing" e vejo um cartaz (lindo por sinal) em todos os pontos de ônibus da cidade . anunciando o novo disco do meu amigo Frejat. Deve existir algum prazer que eu desconheço em jogar dinheiro fora.

30 maio 2007

O Natal de 2007 - A Fronteira Final

Quando passou o natal de 2006 , uma imagem ficou clara no horizonte : "Natal de 2007 - A Fronteira Final".

Quem frequenta o comércio de discos observa diáriamente a degradação dos espaços de venda de CD.

Ontem ,depois de alguns meses, estive no Extra da Tijuca , uma loja enorme que frequento perto do meu estúdio. Práticamente eliminaram a sessão de CDs , que passou a dividir com os DVDs o espaço antes dedicado aos livros!!!

Lembram como foi o fim do vinil? Não foi a indústria fonográfica que o decretou, nem as lojas especializadas, muito pelo contrário, ambos resistiram o quanto puderam. Foram os grandes magazines e supermercados que num belo dia resolveram que discos em vinil não valiam o espaço que ocupavam e BUM! De um dia prá outro aquelas gôndolas sumiram e o vinil virou história...

Se no Extra o espaço para exposição de lançamentos de CDs e DVDs se reduziu drásticamente, continuam lá aquelas cestas de saldos, não mais com encalhes de CDs , mas lotadas de DVDs de catálogo que eu não imaginaria vendido por aqueles preços naquelas condições , um claro prenuncio que em breve o Extra se retirará desse mercado.
Prá quem pretende continuar a fazer negócios com o Extra ,o Carrefour e as Americanas, um péssimo sinal, para quem quer viver de música, uma excelente notícia.

A agonia lenta que vivemos nos últimos anos , parece que finalmente se aproxima do seu desfecho.

Que venha logo, porque não se conserta um avião voando, não se começa a subir antes de tocar no fundo do poço , não se constrói uma nova indústria enquanto se tenta conservar os escombros da velha.

Só quando a indústria fonográfica abandonar o disco como seu produto principal, é que ela poderá adotar os preços que viabilizam a venda de arquivos. Enquanto os preços de downloads tiverem como referência a concorrência com o produto físico eles sempre parecerão ridículamente caros para o consumidor.

Aproximando-se o cataclisma, me arrisco a divisar umas sombras no horizonte:

Essa "nova indústria" não vai ser construída sem os detentores dos grandes catálogo de fonogramas. Ou seja, seja quem for que possua os catálogos das "majors", vai ser necessariamente parte integrante e essencial do negócio de música no futuro.

Também parece claro que a fabricação e venda de produtos físicos será finalmente tercerizada .Eu particularmente aposto que quisosques que queimam CDs e DVDs aparecerão nas lojas onde havia uma sessão de discos físicos. As gravadoras serão portanto básicamente "licenciadoras de fonogramas", um negócio bem parecido com as editoras de música de hoje. Nesse ambiente estimular novos artistas e novas formas de vender música (coisas que ultimamente não vinham interessando as "majors") serão prioridades.
Assim aqueles bons profissionais que conhecem música e trabalham/ram em gravadoras certamente terão espaço no Musicbizz 2.0.

Eu, como tantos outros músicos, compositores e produtores, não ambicionava ser dono de gravadora, editora ou distribuidora, fui forçado muito a contra gosto, a assumir algumas dessas funções simplesmente para poder continuar trabalhando com música.

Nós que criamos música queremos é contar com parceiros competentes e honestos que tratem do negócio de vender música. Será que vai acontecer?

Feliz 2008!

O artigo do NYT que sugeriu essa pensata:

Everyone in the industry thinks of this Christmas as the last big holiday season for CD sales," Mr. Sinnreich said, "and then everything goes kaput."
http://www.nytimes.com/2007/05/28/arts/music/28musi.html?_r=1&oref=slogin

23 maio 2007

Péricles Cavalcanti no CCC

Fui preparado para uma noite de estética joãogilbertiana , voz e violão no centro da ação e no máximo uns sons/músicos adicionais para colorir. Tudo o que eu conhecia de Péricles Cavalcanti até ontem (e não é pouco, porque eu sou fã) apontava para uma produção minimalista.

Chego no CCC , um dos raros locais nessa cidade de São Sebastião onde se pode ouvir música popular com prazer, na companhia de Marina, que veio meio empurrada na pura fé no meu bom gosto.

Surprise ! surprise! pelos instrumentos e amplificadores no palco, se trata de uma banda grande. Na primeira música Péricles empunha um baixo !? A banda composta de 5 músicos , que se revezam em instrumentos e vocais, é espantosa . As orquestrações fantásticas , tudo paulistamente preciso e baianamente criativo, um deleite.

Será que com essa vestimenta primorosa as canções filosóficas de Péricles finalmente vão encontrar um público mais numeroso? Torço que sim , pelo bem das pessoas que não conhecem , Péricles o “Rei da Cultura”.

A platéia contava poucos e bons, entre eles dois dos meus artistas brasileiros favoritos, Caetano e Hamilton Vaz Pereira. Sei lá se o disco vai vender, se os shows vão encher, prá mim foi um sucesso retumbante.

22 maio 2007

Já que os anos 90 terminaram....

Los Hermanos vão parar, o Romário também.
Britney e Courtney piraram... e Jlo não está se sentindo muito bem..
Ganância está fora de moda, griffes milionárias também...

Em vista do exposto :

Declaro oficialmente encerrados os anos 90.

Já vai tarde!

Em vista disso retomo essas anotações inúteis...

21 junho 2006

Letra e música

Letra e Música

A canção popular é uma colisão entre música e poesia.
A poesia que comenta os tempos, a música que induz a dança.
A oração profana para ser repetida mil vezes,a música que relaxa os sentidos. O hai-kai que intriga, a melodia que gruda no inconsciente.

Sempre que alguém quer reduzir a canção popular a apenas um dos seus elementos não explica, confunde.
A canção popular é por definição a arte da palavra cantada, portanto letra de música não é poesia e qualquer arranjo de canção popular não é exatamente Música (com “M” maiúsculo).
Isso não quer dizer que a canção seja uma arte menor, muito pelo contrário. Afirmar a duplicidade da canção apenas ressalta que ela tem que ser criticada e observada como criação artística independente que é.

A canção popular como o cinema é “arte vira-lata” , de sangue misturado, cria da mestiçagem de outras artes. Artes que se moldaram no século XX . Artes que nascem de engenhos tecnológicos (cinematógrafo e fonógrafo), que ganham terreno pelo mundo, que permitem expressões novas e únicas.

Não existem artistas consagrados na canção popular que não tenham qualidades poéticas e musicais.
As letras de um Bob Dylan ou de um Caetano Velloso naturalmente ofuscam a parte estritamente musical das suas composições, mas isso não quer dizer que elas não existam.
Tanto em Dylan como em Caetano o ouvinte atento vai encontrar uma riqueza de soluções melódicas e uma constante re-invenção musical, que dão ao conjunto das suas obras o valor que nós atribuímos a elas.

Como arte da palavra cantada a canção convive e se inspira na poesia e na música pura. Frequentemente os compositores de canções também avançam pelo terreno das outras duas artes. Astor Piazzola e Duke Ellington , são criadores que escaparam do terreno da canção para a música pura como Chico Buarque e Leonard Cohen eventualmente escorregam para a literatura.

19 janeiro 2006

O meio a mensagem , o som e a música.

No espaço de uma semana li três artigos em lugares muito diferentes que abordavam o mesmo problema , a qualidade do som como parte fundamental do processo de experiência da música. Me senti estimulado a lançar esse assunto , no qual penso faz muito tempo, para a reflexão dos meus não-leitores.

Para nós que vivemos nesse tempo de assalto constante aos sentidos e de ouvidos superestimulados é necessário lembrar que a música não nasceu gravada.
Sim meus amigos da geração ipod, já existiu um tempo num passado não tão remoto em que para ouvir músca era preciso que alguém a tocasse.

Nesses tempos imemoriais em que a música era tocada por músicos de corpo presente, a questão era a qualidade do músico, não a qualidade do som. Felizmente isso é passado. Hoje em dia uma grande parte da música que nós ouvimos é criada como gravação e a performance ao vivo muitas vezes se torna uma operação de cachorro correndo atrás do rabo,com os músicos e técnicos tentando reproduzir ao vivo o que foi criado como gravação.

Mas voltando aos artigos que fiz menção no início . O primeiro foi na revista "Mix" , a bíblia do aúdio profissional, um painel com alguns engenheiros de masterização reclamando da qualidade dos equipamentos de áudio em que normalmente se ouve música hoje. O segundo e o terceiro eram artigos um no San Francisco Chronicle e o outro no site do Pete Townshend ( guitarrista do The Who) falando sobre o impacto dos headphones como principal meio de experiência musical.

O artigo de Townshend era um alerta , de alguém vitimado pela exposição a música alta em headphones. O guitarrista do Who , além de uma séria perda de audição, sofre de uma condição chamada tinitus , uma irritação no nervo auditivo, que se manifesta como um zumbido aguda permanente , cada vez que a pessoa é exposta a sons de alto volume.

No momento em que os "home theatres" se proliferam , a questão da qualidade da reprodução deveria estar na frente de todas as outras para a indústria da música. O DVD oferece oportunidade de qualidades de som jamis experimentadas antes, mas tudo isso passsa batido, por uma indústria que não consegue ver além dos resultados do próximo trimestre.

Volto ao assunto..

17 dezembro 2005

O top ten do meu carro em 2005

Faz alguns anos que observei que o meu lugar favorito de ouvir música era o carro. Imaginei que esse seria um desvio de comportamento pessoal, mas descobri que isso acontecia com muita gente. O meu carro que carrega uma família com gostos musicais díspares , passou a ter um top ten particular, resultado de um mmc dos gostos dos ocupantes. Francisco meu filho mais moço de quatro anos´, que é o maior frequentador do carro tem um papel decisivo nop top ten desse ano.. Vamos lá :

1- Amassokoul / Tinariwen
2- Out of Exile / Audioslave
3- Chaos and Creation... /Paul McCartney
4- Matador / Mickey D
5- Tournée/ Paolo Conte
6- Illinoise - Sufjan Stevens
7- Joaquin Sabina - 19 dias e 500 noches
8- Jorge Ben - Tábua de Esmeralda
9- Amadou & Mariam -Dimanche à Bamako
10- Franz Ferdinand - os dois discos
11- K.T. Tunstall - Eye to the Telescope

16 dezembro 2005

Porque amo o meu MP3 (1) - O condicionante linguístico


O ano era 1985, a fita cassete se chamava "Viaggi Organizzati", o artista era Lucio Dalla. Meus pais me trouxeram de uma viagem à Itália, como costumavam trazer música de todos os muitos cantos do planeta para onde viajavam.

O disco era espetacular. Não espetacular por diferente, exótico e curioso, como eram tantos discos de tantos lugares que meus pais tinham me trazido. Era um disco exemplar de moderna música "pop", especialmente pelo uso desasombrado, inteligente e particular que a produção fazia das novas folias digitais que nos fascinavam naquela altura; sintetizadores , baterias eletrônicas e samplers. Essa estética moderna sem deslumbramentos servia a canções de melodias genialmente italianas e letras que revelavam novas qualidades a cada nova ida ao dicionário (a canção como senha para descobrir um novo idioma é uma dos grandes prazeres que ela nos oferece).

Descobri que Lucio Dalla já era meu conhecido sem eu saber. Era ele o autor do super-hit "Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones" versionado pelos Incríveis. Ainda no fim dos anos 80 , a música de abertura do "Viaggi Organizzati" - "Tutta la Vita" , viraria um novo hit para Dalla no Brasil numa tenebrosa versão entitulada "Tô -P- da vida" da banda-armação Dominó, que não tinha a mais remota semelhança de sentido com a canção original.

Lucio Dalla já era aquela altura "um grande" da música italiana, tinha lá a estatura que um Caetano ou um Chico Buarque tinham aqui. A Itália não é propriamente um país obscuro do terceiro mundo: Como então, me perguntava, um cara como eu que consome toda informação musical ao seu alcance, precisou da intervenção da providência divina, através de uma recomendação aos meus pais, para descobrir um artista desse calibre ?

A resposta era óbvia , nós vivíamos (vivemos) numa dieta musical imposta por corporações multinacionais anglo-americanas, sendo assim toda a música popular que não é cantada em inglês tem enorme dificuldade de achar um público para além da sua língua/ cultura/pátria de origem. Claro que essa afirmação simplista, com ares de teoria conspiratória, esconde muitas verdades históricas sobre a formação do mercado mundial da música , sobre os processos econômicos e os mercados internacionais. Mas eu estava precisando de um bode expiatório e as corporações multinacionais estão aí é para isso mesmo.

A descoberta mais importante era que havia um mundo de música pop interessante a ser explorado, que não iria chegar a mim pelos meios normais pelos quais eu costumava tomar conhecimento de música. Essa consciência sobre as limitações da dieta musical que me era ofertada pelos veículos de divulgação serviu mais para colecionar nomes do que para ouvir música. A maioria dos artistas a quem se fazia referência não tinha discos disponíveis nas lojas. Portanto , fora um ou outro que escapava milagrosamente ao cerco da anglofonia, meus ouvidos continuavam reféns dos vagares da indústria do disco e suas vilanescas corporações cada vez mais multinacionalmente monoglotas.

Tudo mudou com os Napsters/Kazaas/E-mules da vida. Numa virada de página do grande livro por escrever da Internet, toda a música popular do mundo estava à disposição dos meus dedos e ouvidos. As recomendações, referências e leituras do passado foram rapidamente transformando-se em música para ser ouvida. Essa infinitude de possibilidades leva inicialmente a uma certa estupefação, mas com o passar dos meses vão ser revelando artistas e discos que abrem janelas para novas culturas.

O espanhol Joaquin Sabina , o italiano Paolo Conte a banda francesa Mickey 3D , são artistas que enriqueceram recentemente o meu universo musical, graças a disponibilidade da sua música na Internet. Como eles outras tantos estão aí para ser descobertos.

10 dezembro 2005

o melhor disco de rock do ano

Numa dessas navegações associativas sem destino que realizo de manhã , à partir dos emails que recebo diariamente (NYTimes/The Independent/AJCulture/blueBus/BBC/nominimo) caí na lista de indicados para o Grammy que foi divulgada hoje.

Gosto do Grammy e não gosto do Grammy.

Gosto porque quando o assisti de corpo presente pude sentir um clima bacana. Aquela coisa de ficar na fila do cachorro-quente atrás do Jeff Beck, trocar figurinhas com Roy Haynes esperando um taxi.. ou seja , a interação do mundo da música americana tudoaomesmotempoagora,é uma experiência super-bacana .

Não gosto do Grammy quando ele quer pretender ser produto de exportação. Acho, desde o marco zero, o Grammy Latino uma ridícula manifestção de subserviência cultural e o espaço que a grande imprensa brazuca dedica aos brasileiros indicados ao prêmio americano um triste sinal de colonialismo mental .

Digo isso tudo para justificar o tempo que perdi lendo os indicados do Grammy e constatando o absurdo que é ausência dos dois melhores de disco de rock americanos do ano: "Mesmerize/Hipnotize" do System of a Down e o "Out of Exile " do Audioslave.

Ambos estão apenas indicados em categorias menores que garantem a ausência deles da transmissão de TV. Uma óbvia e milimetrada medida para evitar os discursos anti-guerra do Iraque que ambas as bandas iriam promover se o espaço televisivo estivesse disponível.

O fiapo de credibilidade que o Grammy ainda poderia ter, foi definitivamente jogado no lixo.

07 dezembro 2005

Big & Rich

O melhor disco de rock'n'roll do ano é " Comin' to your city" do duo country Big & Rich.
Explico:
Rock'n'roll é uma coisa diferente de rock. O duo eletrõnico alemão Kraftwerk está inscrito no universo do rock, nada menos rock'n'roll do que os robôs de Dusserldorf.
Rock'n'roll é simples , despretencioso e divertido, como Chuck Berry , Little Richard e James Brown, música de festa. Como já disseram os Beach Boys, com enorme poder de síntese, FUN,FUN,FUN.. Nessa tradição de música para sacudir o esqueleto, Grande e Rico estão bem na fita. daunloude e tire suas próprias conclusões.

01 dezembro 2005

dieta -1


Rápidamnete um resumo do que anda frequentando os meus ouvidos.

Sufjan Stevens - Illinoise - Esse já está quase na boca do povo.
Mais um cantor/compositor sensível , esse meio de década 00 está com um incrível sabor de meados de 70. Sufjan se destaca nesse bloco de compositores que cantam baixinho e tocam violão pelas orquestrações originais e o uso intensivo de cordas, metais e coros. Há algo de Brian Wilson no destemor em que Stevens se lança no emprego de todas as cores musicais que dispõe. Viciante.


Jefferson Airplane = Surrealistic Pillow - Os vagares do negócio muitas vezes nos afastam de descobertas preciosas. O Jefferson Airplane não desfruta de um grande prestígio internacional nesse momento da história , são raras as citações a banda, é raro ouvir sua música mesmo os sucessos.

Em parte esse esquecimento se deve a eles próprios, que esculhambaram o legado de uma grande banda numa segunda encarnação (Jefferson Starship) que pegou uma rota rumo a breguice e nunca mais voltou.

Mais que a própria biografia , o que faz que a boa fase "Airplane" permaneça obscura é o fato dos primeiros ( e melhores ) discos da banda terem sido gravados para uma gravadora que fechou e estarem perdidos em algum rolo judicial interminável.

É raríssimo encontrar os discos e mesmo as coletâneas do Jefferson Airplane são figurinhas difíceis. É uma injustiça que a santa Internet repara.

Conhecia os hits do Airplane"White Rabbit", "Somebody to Love" , tive ou ainda tenho uma coletânea e me dava por satisfeito. Alguns anos atrás , sabe-se lá por indicação de quem, comprei o disco "Oar" um solo do Alexander "Skip" Spence , primeiro baterista da banda , clássico da psicodelia bad trip . Me apaixonei pelo disco e essa paixão me deu a curiosidade de ouvir os discos originais do Airplane, onde ele tocava.

Baixei os quatro primeiros - Surrealistic Pillow (1967) ,Crown of Creation (1968), Volunteers (1969) e Blows against the empire (1970) e descobri uma banda mais próxima do Buffalo Springfield do que do Grateful Dead, só para falar da cena flowe power, Califórnia, final dos sessenta. É psicodélico com certeza, mas não daquele jeito doidão bicho-grilo do Dead. De alguma forma o Airplane é a banda que mais encarnou o espírito contestador revolucionário de 68 nos Estados Unidos.

Portanto usem os seus Kazaas,E-donkeys e quetais .

P.S. - Tenho que fazer justiça e me lembrar que o Maurício Valladares sempre me recomendou o Airplane..

24 novembro 2005

olha nóis no weblog, pipou!

Pedro Dória , jovem companheiro de velhas noitadas, dá uma força pros amigos!

Além de amigo, ele é bom pacas... até os alemão gosta dele.. incrívi..


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